quinta-feira, 26 de abril de 2012

Reciclagem da própria vida....


03/09/2011 - SOBREVIVER
 A CAPACIDADE DE RECICLAR A PRÓPRIA VIDA
 Por: Vladimir Ribeiro  (vladimir@abcdmaior.com.br)

 
José Amaro dos Santos: vida construída com a reciclagem. Foto: Andris Bovo
José Amaro dos Santos: vida construída com a reciclagem. Foto: Andris Bovo
 
Relembrando, Seu José olha para o que conquistou e questiona

Na década de 1970, quando o termo reciclagem não estava tão na moda quanto agora, José Amaro dos Santos circulava pelas ruas de uma Santo André muito diferente da que conhecemos atualmente. Vivia à procura de papelão, alumínio, cobre, entre outros metais vendidos para um pequeno empresário da cidade. O dinheiro obtido tinha destino certo: era utilizado para sustentar a numerosa família de 13 filhos.
Foi a vontade de vencer na vida que fez com que, já casado e com um filho, o pernambucano José Amaro viesse para São Paulo. Foram 16 dias de uma longa viagem da distante Recife até o Brás, de onde partiu ainda para Santos, onde moravam os sogros.
Seu José estabeleceu residência fixa em Santo André em 1971, mas sempre morando de favor na casa de amigos e parentes. Com o desejo de conquistar um pedaço de terra que fosse seu e por sugestão de um amigo, largou a profissão de serralheiro e foi recolher papelão nas ruas. “Me diziam que dava mais dinheiro e fui confirmar”, afirmou.
Antes de clarear o dia, Seu José circulava pelas ruas ainda de terra das vilas Pires, Alzira, América e Centro de Santo André. Eram muitos quilômetros percorridos em busca de papelão, cobre, alumínio, chumbo e latão. “Aos poucos fui aprendendo quais os materiais que tinham mais valor, como o alumínio, que era muito comum nas ruas”, lembrou.
Com as vendas do material reciclável e com a ajuda da mulher Vicência Amaro dos Santos, Seu José comprou um terreno na Vila Lutécia e construiu sua primeira casa, modesta, de apenas três cômodos, mas aconchegante para toda a família.
Era para essa casa que todos os dias Seu José retornava com o material que coletava nas ruas. Com a ajuda dos filhos mais novos, descarregava o carrinho e amassava os papelões. O material era amarrado em grandes fardos que eram vendidos para o ferro-velho do bairro em que mora até hoje.
Relembrando um pouco do que passou, Seu José, hoje com 84 anos, olha para o que conquistou e questiona assustado tudo o que aconteceu. “Às vezes me pergunto como ainda estou vivo. Passei por muitas coisas, e muitos ficaram pelo caminho.” O que explicaria tamanha força? Talvez a capacidade de reciclar a própria vida. 

Um comentário:

Anônimo disse...

Que lindo, emocionante.

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